Economia Feminista no Brasil

O livro é um retrato da diversidade de pesquisas e análises acumuladas por intermédio da Rede Brasileira de Economia Feminista (REBEF). Ele serve para consolidar as conquistas e, ao mesmo tempo, amplia o instrumental teórico e prático nas lutas cotidianas que buscam a transformação econômica e social.

Organizadoras:

MARILANE OLIVEIRA TEIXEIRA
MARGARITA OLIVERA
CLARICE MENEZES VIEIRA

APRESENTAÇÃO

A ciência econômica, especialmente a partir da consolidação das visões neoclássicas como paradigma dominante, adotou um método analítico cada vez mais abstrato. Nesse esforço de abstração, personificado no homo economicus, racional e individualista, cuja principal motivação é a busca constante de lucros, há pouco espaço para compreender as diversas formas de opressão e exploração vivenciadas por outras corporalidades (PUJOL, 1992). Corpos feminizados e racializados raramente são objeto de estudo na economia, e a realidade que os modelos econômicos analisam está completamente distante de nossas vivências.

Essas questões foram levantadas por mulheres economistas, cientistas sociais e militantes feministas por bastante tempo. No entanto, é somente nos anos 1990 que a economia feminista emerge como uma corrente teórica dentro da ciência econômica, sobretudo nos países do Norte Global, a partir da criação da International Association for Feminist Economics (IAFFE), em 1992, com o intuito de construir uma abordagem crítica dentro da disciplina econômica que examina as desigualdades de gênero, questiona as estruturas patriarcais e busca compreender como as questões de gênero afetam e são afetadas pela economia. Em contraposição às teorias econômicas tradicionais, a economia feminista destaca a importância de analisar e compreender o papel das mulheres na economia, assim como as dinâmicas de poder que perpetuam as desigualdades de gênero (CARRASCO, 2006).

No Sul Global, embora o processo tenha sido mais lento, houve um grande impulso nos últimos anos, estimulado pelo crescimento da “Maré verde” na América Latina e pela avançada na conquista de direitos das mulheres e dissidências. As opressões de gênero e raça foram novamente colocadas em pauta. Em particular, no Brasil, nós, as economistas mulheres, temos batalhado para abrir espaços dentro do mundo político e no meio acadêmico, onde nossa presença sempre foi menor que a de nossos colegas homens. Apenas cerca de um quarto das alunas de graduação e pós-graduação, assim como das professoras, são mulheres, conforme aponta o Relatório da BWE de 2021. Além disso, a maioria dos textos acadêmicos publicados em revistas de economia não aborda questões de gênero, muito menos incorpora perspectivas da economia feminista, como indicam Bohn e Catela (2017). Ninguém se surpreenderia diante da afirmação de que a ciência econômica é profundamente masculina, branca e eurocentrada.

No entanto, no Brasil, nós, as economistas feministas temos realizado avanços significativos para abordar as desigualdades de gênero e promover perspectivas inclusivas no campo econômico. Desde tempos imemoriais, temos cultivado a habilidade de nos organizar em redes, seja para o cuidado mútuo, a sobrevivência coletiva, o compartilhamento de recursos, a produção colaborativa, ou para o fortalecimento e multiplicação de nossas forças. Nesse contexto, em 2020 emerge a Rede Brasileira de Economia Feminista (REBEF), constituindo-se como um espaço que congrega cientistas sociais de diversas regiões e universidades do Brasil. Este coletivo compartilha a visão da economia feminista e reconhece, de maneira inabalável, que a união de forças amplifica nossa capacidade de impacto e transformação. Apesar dos desafios de um ambiente que muitas vezes parece desalentador, temos alcançado progressos notáveis nos últimos anos, aumentando a visibilidade e a participação das mulheres nas áreas de economia e ciências sociais e promovendo cada vez mais pesquisas que discutem a situação das mulheres no Brasil. De fato, um dos nossos objetivos tem sido incorporar perspectivas de gênero na análise econômica e na pesquisa acadêmica. Isso implica abordar questões como a disparidade salarial entre os gêneros, a economia dos cuidados, a participação das mulheres na força de trabalho, a não neutralidade das políticas públicas, as relações entre gênero e macroeconomia, gênero e desenvolvimento, mudanças climáticas e gênero e outros temas relacionados à igualdade de gênero e a necessidade de colocar a vida no centro.

Embora ainda existam grandes desafios, há uma iniciativa importante para aumentar a presença da economia feminista nas publicações acadêmicas brasileiras, e esse livro é uma demonstração disso. Nós, as economistas feministas no Brasil também temos trabalhado para aumentar a conscientização pública sobre questões de gênero na economia. Organizando disciplinas de economia feminista e de gênero, criando projetos de extensão, construindo núcleos de pesquisa nas várias universidades do país, participando de discussões públicas, conferências e eventos para sensibilizar sobre a importância de abordar as desigualdades de gênero no cenário econômico.

Apesar dos desafios persistentes, como participantes da REBEF desempenhamos um papel crucial na promoção de uma economia mais equitativa e inclusiva. Nosso trabalho contribui para o avanço da compreensão das dinâmicas econômicas sob uma perspectiva de gênero e estimula mudanças positivas nas políticas e práticas econômicas. Este texto acadêmico reflete o compromisso contínuo dessas profissionais em enfrentar e superar as barreiras que limitam a participação e o impacto das mulheres no campo da economia no contexto brasileiro e esperamos que possa ser uma inspiração para as futuras gerações.